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Na estrada

Tec-tec

Arthur Soares
Arthur Soares
6 min read

Estou em casa me protegendo do calor de 35ºC lá de fora. Estou sentado no sofá e acompanhando o tec-tec do ventilador. Fecho os olhos, estou na praia, em Salinas, lembro de estar no térreo do edifício "Vivre la vie", onde passamos inúmeras temporadas de verão. Está um calor insuportável, provavelmente acabamos de voltar da praia. Estamos naquele momento um pouco morto do dia, pelo menos para os que estão recuperando a energia para o segundo turno.

Ninguém está trabalhando, mas sempre há muito trabalho pra fazer. Arrumar a casa, preparar as refeições, organizar a roupa, fazer os planos para o dia seguinte, etc…

Em um universo paralelo, me encontro no saguão do prédio jogando futebol com o Netinho ou João. Olho para o lado e dentro da garagem, havia o dormitório / apartamento do caseiro do edifício, o Seu Domingos. Naquele local o tempo passa de forma diferente.

Seu Domingos está sentado em seu banquinho e tem sua rede de nylon estendida entre ele e o portão de ferro que nos separa. Ele está fazendo reparos. Ao fundo, eu consigo escutar a televisão, está passando Faustão, e quase indistinguível, está ali o sempre presente tec-tec do ventilador. Indo e vindo contra o calor. Eu corro em direção à bola, chuto e erro o gol.

Eu tenho pensado bastante nesses dias de férias. Outro dia a minha avó compartilhou uma dessas memórias. Resgatar memórias que você não sabia que havia esquecido é um prazer. Ou até melhor, descobrir novas verdades sobre o que você lembrava, trazendo uma nova versão para esse momento que você tanto já relembrou.

Até uma certa idade na minha infância, meu pai nos acompanhavam com câmeras fotográficas ou filmadoras. Duas das minhas primeiras paixões tecnológicas.

A Globo passava na hora do almoço o Vale à pena ver de novo reprisando novelas famosas que foram ao ar no passado. O programa que servia como uma memória das novelas fazia parte da nossa rotina diária. O feijão com arroz vinha servido entre o Globo Esporte e o Jornal Liberal, seguido do Vídeo-show com a goiabada com queijo e café e durante o intervalo do cochilo reprisava o Vale à pena ver de novo. Então, vez ou outra, quando era um capítulo bom, a gente programava o video cassete para gravar o programa.

Por algum acidente banal, as nossas duas fitas cassetes, do intervalo do meu nascimento, até um dos primeiros natais com a minha irmã, foram utilizados para tais gravações. Restando apenas alguns minutos de flashes da nossa infância intercalados com vinhetas da Globo.

Uma grande parte delas acontece em Salinas. Não à toa, tento recriar essas memórias e espaços em branco da minha lembrança. Algumas são de minha autoria e outras foram relembradas por outros.

Vamos fazer uma exercício, feche os olhos e imagine uma maçã. Agora me diga, com quanto detalhe você consegue descrever a imagem que visualizou? Qual era sua cor? Seu tamanho? Quanta textura possuía a sua casca?

Aphantasia é a inabilidade de um indivíduo conseguir visualizar imagens em sua mente. O exercício acima serve como uma escala para diagnosticar o grau de Aphantasia que alguém possui. Começando em "Consegui visualizar vividamente uma maçã" e terminando em "Como assim vocês conseguem criar imagens na sua cabeça?" – onde eu me encontro.  Eu sempre achei que imaginar alguma coisa na mente era uma metáfora para algo que eu nunca descobri a resposta.

Trecho do "Asterios Polyp" falando sobre memória. "Quanto mais alguma coisa é relembrada, mais o cérebro tem a chance de refinar a experiência original, porque memória é uma recriação e não uma reprodução".


Na minha cabeça, eu não vejo imagens, alias eu não vejo nada. Eu não lembro de algo e me transporto para um cinema onde posso ver o filme. Assisto às minhas memórias, da mesma forma que eu posso escutar a televisão da sala do Seu Domingos. Eu não vejo a sua tela, mas sei o que está acontecendo nela. Reconheço um programa de auditório, o apresentador entrevista um convidado, seguido de uma performance musical e corta para os comerciais. Também posso assistir à minha memória com os outros sentidos. Sons, cheiros, texturas, conceitos, essas coisas todas são sentidas, mas não vejo nada.

Eu acho que me direcionei para fotografia para ter um super-poder pessoal. Parar e ilustrar esses momentos que eu gostaria de revisitar no futuro. Por mais que banais, eles se tornam uma poupança de imagens para que eu possa me reconectar com quem eu já fui e o que já vivi. Um plano de aposentadoria para a minha memória.

Eu fecho os olhos e consigo descrever claramente como era a planta do prédio em Salinas, lembro das texturas do chão, da temperatura do portão de ferro que separava a garagem do saguão. Lembro especialmente do som ensurdecedor da casa de máquinas do elevador. Nosso apartamento ficava no último andar e da porta de entrada víamos a casa de máquinas.

Eu navego por essas memórias apenas por coordenadas, como um GPS sem o mapa de fundo. As fotografias e vídeos permitem que eu preencha esse mapa de fundo da minha memória visual.

A cena começa, eu olho pra lente, volto a olhar pra frente e começo a andar pra trás. As imagens são editadas, ou melhor, as imagens são preenchidas. No fundo, eu vejo um carro, acho que era um Voyage, e mesmo sabendo que minha família teve diversos carros, é esse o qual minha memória se refere à qualquer memória da minha infância.

Estamos no carro à caminho da praia e eu sinto o quão escorregadios estão meus pés. Lembro que no verão, nosso carro tinha os carpetes substituídos por caixas de papelão cortadas no mesmo formato. Era como se o carro também se preparasse para o verão. Tal técnica, como muitas outras, faziam parte da rotina que adotávamos na praia.

A praia do Atalaia está a 15km do centro de Salinópolis, onde ficava nosso apartamento. Tal distância exigia um grau de preparo um pouco diferente de quem pode atravessar a rua e cair no mar. Íamos de carro e com o carro pra praia. O ciclo diário do mar faz com que a orla alterne entre nenhuma e algumas centenas de metros entre a restinga e a água. Quando é a preamar? quando é a baixa-mar? Que horas precisamos pegar a estrada? A que horas precisamos sair para evitar o engarrafamento ou a chegada do mar? Vamos ficar do Lado direito, ou vamos evitar a farofa e ir para o Lado esquerdo (eu nunca entendi claramente qual era o fator que decidia irmos para o Farol Velho)?

Havia toda uma logística envolvida na formação dos comboios ali na Orla – sim, entrávamos com os carros na praia. Lembro da constante orquestração que era movimentar os carros para fugir da maré, para proteger e criar espaço para as crianças e para reduzir a velocidade dos carros que circulavam pela orla.

É o final do dia e estamos voltando pra casa, eu e Lucy já sabíamos de cor as diversas etapas para retirar toda a areia de nossos pés antes de entrar no carro, cumpríamos o checklist e caíamos na estrada. Entre um cochilo e outro escuto o "Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão" da Marisa Monte. Chegamos de volta ao prédio e eu atravesso o saguão, seguido do ensurdercedor elevador, escuto no fundo o tão reconhecível som. Tec-tec.

Abro os olhos de volta em Berlin.

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Arthur Soares

Brazilian based in Berlin, Germany. I'm writing and sharing about technology, photography, and other personal interests.